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Dançar pela primeira vez... em adulto!


Valerá a pena começar a dançar, agora que sou adulto?
“Nunca fiz nada, não vou aprender agora”, ou “Dançar? Eu tenho dois pés esquerdos”, ou ainda “Eu não sei dançar!” são algumas das expressões que ouvimos vezes sem conta e que nos fazem pensar no porquê de começar a dançar – em qualquer idade, em qualquer altura.
Os benefícios da dança são bem conhecidos a todos níveis, mas acredita quem nunca dançou que apenas os pode abraçar quem começou a aprender ballet aos três anos, ou quem tem o "swing" no corpo desde sempre, ou quem venceu aquele concurso de dança para adolescentes, ou…
Desenganem-se! Em adulto, a dança traz favores inimagináveis!
As sociedades modernas e o dia-a-dia em que vivemos trazem-nos regalias imensas mas, com elas, aportam também todas as pressões, preconceitos, julgamentos e obrigações que nos pesam sobre os ombros e nos impõem determinadas acções de vida, lugares de vida e situações de vida. Aprendemos, com as sociedades modernas, a esconder os nossos defeitos, a julgá-los e, por norma demasiado alargada!, a deixar que nos definam. O risco de “parecer mal” ou de “não ser suficientemente bom/adequado” impede-nos de viver umas tantas realidades.
Mas como ultrapassar o desafio de nós próprios? Adivinha-se a resposta e eu quebro desde já o suspense: com a dança!
Uma criança que cresce em dança logo se apercebe do seu corpo, do toque que ele emite e da imagem que propaga. E assim cresce, com uma alma imperceptivelmente aberta. Estas sensações são absolutamente essenciais na vida adulta – hoje, especialmente, quando o mundo é feito de embates digitais e contactos à distância - e quem nunca dançou dificilmente as terá realizadas na sua plenitude.

Quão mais fácil é, para o adulto, não tocar em nada tão quente quanto a emoção!

O primeiro contacto com o corpo, quando em idade avançada, é arrebatador. A confiança que cresce ao sabor de cada músculo experimentado, o pescoço que se vai endireitando mais e mais na direcção obrigatória do espelho e a percepção de que, devagar mas eficazmente, o olhar tremido se imobiliza em força são algumas das verdades que nos impelem a seguir de cabeça erguida, face a face com essas sociedades modernas. Ao nível pessoal, as alterações são notórias: a autoestima que se eleva, o sorriso que não desmaia e o apressar de perna tão seguro! Bem à vista do mundo, começamos a avançar!

A dança a pares - mais! - obriga-nos não só à consciência de nós, mas à que existe de nós com os outros. Quanto nos esquecemos da importância de nos encostarmos, de nos tocarmos, de nos sentirmos em contacto. Serão fáceis de prever os medos que o adulto comum experimenta, quando em frente ao seu parceiro - são os que existem no quotidiano: “ele/a não vai querer agarrar-me”; “e se eu errar?”; “tenho de lhe tocar nas costas?”; “o que é que ele/a vai pensar?”. Mas, aos poucos, as mãos vão apertar-se em firmeza, os olhares irão cruzar-se, ilustres, e os pés inquietar-se-ão, com maior ou menor ciência, simplesmente em música.
As questões? As questões definham, enfraquecem, e o adulto aprende: pouco importa!

Dancem. Dancem errado, enganem-se nos passos. Mas dancem!

Ana Portocarrero
Segunda, 26 de Janeiro, 2015 por Ana Portocarrero