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O dia em que a dança acabou


“Cor-de-rosa?!”, pensei, assombrada, ao abrir o baú proibido do sótão da casa dos meus pais e encontrar um pequeno fato “cor-de-rosa”. Eu nunca tinha visto o cor-de-rosa. Conhecia a cor, claro, na escola aprendemos as cores todas. Mas sempre pensei que fossem ficção, que existissem apenas o branco, o preto e o cinzento, tal como no mundo real.
O baú proibido encostava-se a um canto empoeirado do sótão fechado: bastou-me ter idade e destreza suficientes para me lançar na aventura interdita de adivinhar o que continha! Sempre quis saber que segredos encarceraria o baú proibido. Mas… cor-de-rosa? O cor-de-rosa existe, afinal? Corri aos tropeções pelas escadas – os meus pais iam ter de me explicar muito bem o que fazia um fato cor-de-rosa no inibido baú! À medida que avançava para esperada elucidação, dei por mim a perder o passo, lentamente, enquanto olhava, enternecida, o pequeno fato cor-de-rosa que se acomodava nos meus braços. Sem perceber, sorri. E era estranho, esse sorriso, era diferente. Era quase cor-de-rosa, sem cinzentos ou ensombrados. E como sabia bem, esse sorriso!
Os meus pais sentaram-me numa cadeira e contaram-me, inconsolados, a história do dia em que a dança acabou. A dança era um conjunto de movimentos que se ligavam em música, paixão, cor, sorte e vida, disseram-me. "Um conjunto de fios de alma que nos conduz." Há muitos anos, antes de eu nascer, toda a agente dançava. O mundo era feito de cor-de-rosa, vermelho, amarelo, azul e outras cores - vivas, pálidas, mais claras ou mais escuras! – e a música entoava nos recantos e os pés excitavam o resto do corpo e tudo se brandia. Se víssemos a Terra da Lua, diziam, reparávamos que ela própria se movia em ritmo, muito lentamente, mas segura e tão alegre.
Um dia a dança foi proibida. Lembraram, alguns infelizes ilustres, que a dança passaria a ser um acto punível com multas e por vezes até cadeia! “Infame, inapropriada, artificial!” argumentavam, “Levam as gentes à excitação!”
Aos poucos, por medo e sujeição, a dança acabou por se desvanecer em memórias. Com o fim da dança e da música acabaram também a exultação das cores, o entusiasmo dos risos, o júbilo infantil do “sentir tão bem”, os fios da alma da vida. Os meus pais baixaram a cabeça, inconformados. “Mas o mundo não ficou triste.”, continuaram, “ Pior do que isso: o mundo ficou vulgar. As pessoas acordam porque assim o manda a natureza, comem porque disso se faz a sobrevivência e trabalham ou estudam porque assim determinaram que o tinham de fazer. Nada é mau… nem bom. É, simplesmente, normal.”
Eu olhei mais uma vez o fato cor-de-rosa que se estendia nos meus braços e voltei a sorrir, sem qualquer esforço. A voz da minha mãe tremia de saudade. “Esse era o meu fato de ballet que um dia serviria para tu dançares.”
“Mãe, achas que ainda o vou poder usar?”

Sem esperar pela resposta, acordei afogueada, com um nó na garganta e três lágrimas presas, prontas a explodir! Olhei à minha volta, desassossegada. O meu quarto… o meu colorido quarto! Sorri. Com alma, com entusiasmo, com paixão. A minha mãe entrou. Prostrado nos braços, trazia um pequeno fato cor-de-rosa.
“Querida, estás pronta para a primeira aula de ballet?”

Ana Portocarrero
Quinta, 28 de Novembro, 2013 por Ana Portocarrero
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