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Pas de Birras – Crónica em jeito de Apresentação ou Vice-Versa


Ao contrário do que aconteceu com a maioria das minhas amigas, eu não frequentei o Ballet porque a minha mãe me obrigou. A minha mãe nunca foi demasiado galinha e acho que não lhe fazia muita diferença se em vez de me apaixonar por Tutus tivesse morrido de amores por umas chuteiras.

Sempre fui um bocado prematura e autónoma: comecei a andar com 10 meses, a falar com 11, a andar de bicicleta sem rodinhas com 3 anos. Isto aconteceu por culpa do meu feitio especial. Devo ter concluído que não podia fazer corretamente as minhas fitas se não me equilibrasse para bater o pé e se não articulasse as palavras para provar que tenho sempre razão… A bicicleta? Bem, devo-me ter lembrado que seria bom ter um meio de transporte caso esticasse demais a corda!
Mas estava destinado que no dia em que avistasse aquele panfleto colado na porta do meu infantário ia fazer uma birra porque queria ir para o Ballet. E fiz. E fui. Com 4 anos e cheia de expectativas. Não sei como acabei no Ballet. Como já devem ter percebido eu era uma maria rapaz. Ninguém na minha família me incutiu esse gosto, quando via televisão interessava-me pelo Dragon Ball, Moto-Ratos de Marte, pelo Vale dos Dinossauros e na melhor das hipóteses pela Navegante da Lua ou pelas princesas da Disney.

Passei 13 anos a realizar “o sonho de todas as meninas”, a aperfeiçoar técnicas que demorei anos a conseguir se quer pronunciar. Saltei escolas e cidades para ser fiel à minha professora, segui-a devotamente do Marco a Guimarães. Desisti da natação porque não fica bonito a uma bailarina ter os ombros largos. Mas sempre disse que “quando for grande vou ser jornalista” e assim que se tornou difícil conciliar, despedi-me dançando daquilo que para mim deixou de ser prioridade.

A verdade é que passaram 16 anos e não me arrependo daquela birra: “Mãe! Eu quero ir para o Ballet!”. E é essa memória que me desperta a mágoa de ter “arrumado as sabrinas”. Quem sabe um dia vou visitar de novo a minha professora agora que o país não deixa ninguém ser grande nem jornalista.

Marta Soares
Segunda, 02 de Dezembro, 2013 por Marta Soares
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